Ciência e tecnologia made in 2010

Posted: 28 de Dezembro de 2010 in [Tecnologias]
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Foi o ano do iPad e da primeira forma de vida artificial. Foi ano em que descobrimos mais um pouco sobre nós e é oficial: os Neandertais acasalaram mesmo com os humanos modernos. Menos grandiosas podem ser as invenções de uma máquina que lava a roupa quase sem água ou de um aparelho que permite jogar numa consola, sem comandos. Mas revelam muito do que foi o mundo em 2010: preocupado em poupar o ambiente e apostado em divertir-se à frente de um ecrã.

Novos planetas: Um sistema solar muito parecido com o nosso

Uma equipa internacional de caçadores de planetas extra-solares (entre os quais os portugueses Alexandre Correia, da Universidade de Aveiro, e Nuno Santos, do Centro de Astrofísica da Universidade do Porto) descobriu este ano, a 127 anos-luz de nós, um sistema solar composto por sete planetas que é o mais parecido com o nosso sistema solar descoberto até agora. Um dos seus planetas é provavelmente rochoso e pouco maior do que a Terra; um outro, também rochoso, será semelhante a Saturno. Os outros cinco são gasosos como Neptuno. Todos eles giram em torno de uma estrela chamada HD 10180, na constelação da Hidra. Desde 1995 já foram detectadas centenas de planetas extra-solares e 15 sistemas solares com pelo menos três planetas.

O primeiro planeta extra-solar de sempre foi descoberto por Michel Mayor e Didier Queloz, do Observatório de Genebra, na Suíça (que também integram esta equipa). Os resultados foram anunciados em Agosto e publicados a seguir na revista Astronomy and Astrophysics. É, porém, quase certo que o planeta mais semelhante ao nosso não alberga vida (nem passada, nem presente), uma vez que se encontra demasiado perto da sua estrela para isso ser possível. Por Ana Gerschenfeld (AG)

Vida artificial: Fabricar uma bactéria em laboratório

Este ano, Craig Venter e a sua equipa, do J. Craig Venter Institute, nos EUA, publicaram um resultado que vinham anunciando há bastante tempo: tinham conseguido criar, em pratinhos de laboratório, a primeira forma de vida artificial.

Antes disso já tinham fabricado cópias do genoma de uma bactéria natural, Mycoplasma micoides, utilizando versões sintéticas dos componentes de base do ADN, disponíveis no comércio. E também já tinham mostrado que as células de uma outra espécie bacteriana, Mycoplasma capricolum, parecida mas diferente, eram capazes, se fossem previamente privadas do seu próprio genoma, de “adoptar” e portanto de reproduzir o genoma natural de Mycoplasma micoides. Agora, os cientistas conseguiam realizar a terceira etapa do seu programa: fazer com que as células de Mycoplasma capricolum adoptassem o ADN artificial de Mycoplasma micoides, criando assim microrganismos com um património genético totalmente artificial.

O trabalho não foi fácil: na primeira tentativa, não aconteceu nada. E, ao longo de meses, a equipa teve de eliminar os erros de código que impediam que o genoma artificial funcionasse, corrigindo literalmente letra a letra o ADN (que continha um milhão de “letras”). Exactamente como os autores de software que, para fazer funcionar um programa de computador, precisam de fazer o debugging do código informático.

Quando os resultados foram publicados, em Maio, na revista Science, houve quem dissesse que isto equivalia a fazer de Deus. Mas não é bem assim. Venter e os seus colegas não criaram vida de raiz – o que continua a ser impossível de fazer. Para reproduzirem o ADN artificial que tinham construído, recorreram à maquinaria celular, extremamente complexa, de uma bactéria já existente.

Claro que isso não significa que não se deva reflectir sobre as implicações éticas e de segurança que as criações deste tipo podem vir a colocar. Aliás, os cientistas congratularam-se por esse aspecto do problema ter sido sempre uma das suas grandes preocupações em todo este processo.

Quanto a aplicações futuras do resultado, elas podem ir desde a invenção de algas produtoras de biocombustíveis inéditos à geração de bactérias capazes de fabricar novas vacinas e medicamentos. E talvez outras coisas que ainda ninguém imaginou. A.G.

Nova forma de vida: A bactéria que gosta de arsénio

A sua existência foi anunciada há dias no meio de uma grande operação mediática da NASA – mas já está a ser posta em causa e poderá ser (ou não, é assim que a ciência funciona…) uma das grandes descobertas do ano. Chama-se GFAJ-1, é natural do lago Mono, na Califórnia e, a confirmar-se o seu gosto pelo arsénio, elemento químico altamente tóxico, a sua descoberta poderá ter implicações cruciais para a procura de vida extraterrestre. Foram a astrobióloga Felisa Wolfe-Simon, da NASA, e os seus colegas, quem decidiram testar a hipótese de existir um microrganismo capaz de se alimentar de arsénio. As suas conclusões, que foram publicadas este mês na revista Science, sugerem que, enquanto todas as formas de vida conhecidas na Terra dependem de seis elementos – hidrogénio, carbono, oxigénio, azoto, fósforo e enxofre -, a bactéria GFAJ-1 parece ter substituído o enxofre pelo arsénio.

Isso significaria que quem procura noutros planetas formas de vida semelhantes às que existem na Terra está a reger-se por uma bitola demasiado estreita. Porém, para se ter a certeza de que esse leque de possibilidades foi agora efectivamente alargado, englobando formas de vida mais estranhas, vai ser preciso descartar outras opções, menos insólitas. Uma das interpretações avançadas pelos críticos é que a bactéria agora descoberta continuou a aproveitar o fósforo existente no meio de cultura (que não terá sido retirado totalmente das amostras), enquanto tentava, ao mesmo tempo, eliminar o arsénio. A.G.

Leitura de genes: O Neandertal está dentro de nós

O debate arrastava-se há anos: teriam os humanos modernos (nós) e os Neandertais, espécie humana extinta há cerca de 30 mil anos, alguma vez acasalado e produzido descendência? Este ano foi possível, graças à leitura do genoma dos Neandertais, responder a esta pergunta pela afirmativa. É oficial: temos bocadinhos de sequências genéticas de Neandertal no nosso ADN.

A equipa autora do trabalho – liderada por Svante Pääbo (na fotografia), do Instituto Max Planck de Leipzig, na Alemanha – demorou quatro anos a ler os genes daquele antigo ser humano. Os seus resultados foram publicados em Maio na revista Science e considerados uma proeza técnica, dado o nível de contaminação por bactérias e fungos dos três fragmentos de osso fossilizado dos quais os cientistas extraíram o material genético (que pertenceram a três mulheres Neandertais e foram encontrados há décadas numa gruta na Croácia).

Quem ficou muito satisfeito com o resultado foi João Zilhão, arqueólogo português da Universidade de Bristol e co-descobridor, em 1998, de um extraordinário achado fóssil: o esqueleto de uma criança de homem moderno no vale do Lapedo, perto de Leiria. Ele e o seu colega Erik Trinkaus, da Universidade de Washington, sempre afirmaram que a criança do Lapedo apresenta uma mistura de traços modernos e de Neandertal, mas inicialmente Pääbo e a sua equipa discordavam desta possibilidade. Agora foram eles próprios a fazer a prova da genética e demonstrar que estavam enganados. A.G.

iPad: O primeiro dos tablets

A Apple não inventou o conceito de computador tablet (a Microsoft, por exemplo, tentou lançar um no início da década). Mas foi a primeira a colocar no mercado um tablet moderno, criou os padrões que as outras marcas se vêem agora obrigadas a seguir e fez com que vários fabricantes apressassem o passo para conseguirem ter um aparelho deste género (e, por ora, poucos o conseguiram fazer). O iPad é o aparelho de electrónica mais marcante do ano.

O presidente da Apple, Steve Jobs, conseguiu, em meses, criar uma nova categoria de dispositivos electrónicos, algures entre os smartphones e os computadores. “Para criar uma terceira categoria de dispositivos, estes terão de ser muito melhores em algumas tarefas-chave”, afirmou Jobs em Janeiro, na apresentação do aparelho. E passou a explicar: “Que tipo de tarefas? Coisas como navegar na Web, email, fotos, vídeo, música, jogos e livros electrónicos.” O tablet da Apple é constituído essencialmente por um ecrã sensível ao toque e a gestos – não há teclado ou rato. O sistema operativo é uma adaptação do sistema do iPhone e, para lá do carisma da marca, o iPad tem sobre a concorrência outra vantagem: é possível instalar muitas das 300 mil aplicações que já existem para o iPhone e que permitem fazer praticamente tudo – jogar (há milhares de jogos e este é um novo nicho para os produtores), escrever textos, organizar listas de compras, ler jornais e revistas, encontrar a farmácia mais próxima. O surto de tablets que se prevê está a agitar uma série de indústrias. Uma delas é a do jornalismo – muitos vêem nos tablets uma potencial salvação para um sector cujas receitas estão em declínio e o dono da News Corp, Rupert Murdoch, investiu 22 milhões de euros para criar um jornal exclusivo para o iPad. Outro sector em que já se sente o impacto é o da edição de livros: por exemplo, os livros da Amazon e da Barnes&Noble, bem como os da portuguesa Leya, já podem ser comprados e lidos no aparelho (e a Apple tem também uma loja de livros electrónicos). Depois do iPod (lançado em 2001) e do iPhone (2007), o iPad veio confirmar a Apple como a empresa de tecnologia de consumo mais inovadora da década. Por João Pedro Pereira

Carro Google: Um carro que guia sozinho

O Google desenvolveu carros que já são capazes de conduzir sozinhos, evitando peões, parando nos semáforos e respeitando os limites de velocidade. Os carros têm um sensor no tejadilho, capaz de captar imagens em todas as direcções e construir um mapa tridimensional da área, que inclui a posição de outros carros. À frente e atrás há sensores de proximidade (como os que alguns carros têm para ajudar a estacionar).

No interior, está um sistema de GPS que inclui os limites de velocidade de cada estrada e toda a informação geográfica que a empresa recolhe para serviços como o Street View. Há ainda uma câmara que detecta semáforos e elementos em movimento, como bicicletas e peões.

A confiança nas máquinas, porém, não é total. Os automóveis do Google nunca são lançados sozinhos à estrada. Há sempre alguém atrás do volante. E, para assumir o controlo do veículo, basta girar o guiador, travar ou premir um grande botão vermelho. A ideia é que um carro-robô reagirá mais rapidamente a situações imprevistas e é ainda imune aos efeitos de álcool, drogas ou à sonolência. A condução seria também mais suave, reduzindo travagens e acelerações desnecessárias e poupando assim combustível. Os cientistas responsáveis pelo projecto estimaram, contudo, que ainda sejam precisos oito anos de desenvolvimento para que a tecnologia possa ser introduzida no mercado. J.P.P.

Kinect: Jogar sem comandos

O Kinect é um aparelho para jogar na Xbox, a consola da Microsoft, e que dispensa qualquer comando – a utilização faz lembrar Minority Report (ainda que, por agora, o Kinect seja bem menos sofisticado do que a ficção do filme). Por exemplo, para navegar pelos menus da consola, o jogador deve abrir a mão, palma voltada para o ecrã, e navegar com movimentos do braço para a opção desejada. Para seleccionar uma opção, basta manter a mão na posição certa durante alguns segundos.

Já os jogos implicam todo o tipo de movimentos. Num jogo de atletismo é preciso “correr” parado (quanto mais rápidos os movimentos, mais rápido corre a personagem no ecrã); num jogo de voleibol os movimentos necessários são muito semelhantes aos de um jogo real; e um jogo de combate implica estar a dar murros e pontapés no ar. O Kinect (que é ainda capaz de ler o rosto dos jogadores e identificar os que já estiverem registados no sistema) tem sido elogiado pelo carácter inovador – mas houve quem notasse serem ainda precisos ajustes para que a tecnologia seja capaz de transpor com precisão os movimentos do jogador para o ecrã. J.P.P.Nintendo 3DS: Em três dimensões, sem óculos

A Nintendo apresentou um protótipo da Nintendo 3DS, que deverá chegar ao mercado no primeiro trimestre de 2011. A consola é capaz de exibir jogos em três dimensões (uma das tecnologias badaladas em 2010), sem ser preciso o uso de óculos especiais. Com um aspecto muito semelhante às outras consolas portáteis da fabricante nipónica, a 3DS tem um ecrã com uma tecnologia que faz com que o olho esquerdo e o olho direito do utilizador captem diferentes partes da imagem, permitindo criar no cérebro a ilusão de uma imagem tridimensional. É mesmo possível ajustar o grau de trimensionalidade e quem quiser pode optar por jogar nas convencionais duas dimensões. O efeito, porém, não funciona a qualquer distância ou ângulo – o que faz com que esta seja uma tecnologia apropriada para uma consola portátil (cuja posição é facilmente ajustável), mas pouco útil noutros suportes, como televisões. J.P.P.

3D Fast Bus: Um autocarro que não complica o trânsito

O nome deste autocarro, 3D Fast Bus, tem pouco a ver com o conceito (por ora, ainda não passou disso) inventado por uma empresa chinesa, que pretende pôr nas estradas um transporte público capaz de ajudar o trânsito a fluir melhor. Apesar da designação, este veículo aproxima-se mais de um grande comboio, que anda sobre uma espécie de carris e que tem altura suficiente para que os carros possam passar por baixo (o que significa que também pode simplesmente parar e ficar estacionado na estrada). Se vier a ser construído, será capaz de levar 1200 passageiros e circular a cerca de 40 quilómetros por hora. A ideia é que seja propulsionado com recurso a energia eléctrica e energia solar. J.P.P.

Máquina de lavar Xeros: Lavar roupa quase sem água

Quem se lembrar dos antigos anúncios dos glutões do detergente Presto (umas criaturas redondas que comiam as nódoas da roupa) já tem uma boa imagem mental de como funciona a máquina de lavar roupa Xeros, desenvolvida na Universidade de Leeds, em Inglaterra. O sistema recorre a pequenos grãos de nylon que conseguem atrair as nódoas dos tecidos – em condições de humidade, estes grãos como que sugam as nódoas para o seu interior. As vantagens da tecnologia são várias e permitem poupar dinheiro e o ambiente. A máquina apenas gasta uma pequena quantidade de água (o suficiente para humedecer as roupas), o detergente quase não é necessário (e os grãos de limpeza podem ser reutilizados centenas de vezes) e, como a limpeza é quase a seco, não é necessário usar máquinas de secar a roupa, que consomem muita electricidade. O cientista responsável pela invenção está, porém, a tentar introduzir o conceito primeiro no mercado profissional das lavandarias e só depois pretende avançar para o mercado doméstico. J.P.P.

Fonte: Público

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