Voando sobre um Ninho de Cegonhas

Posted: 28 de Março de 2010 in [Informação]

Parecem bandos de aves à solta… São as imponentes cegonhas brancas que habitam na reserva do estuário do Sado. Anunciam a Primavera por altura da sua reprodução, são esquivas e matreiras. Fomos segui-las:

Ei-las. Bem lá no alto dos seus ninhos, imponentes, graciosas e altivas. Protegem-nos como se de um forte se tratasse, enquanto batem ruidosamente com os bicos, como sinal de aviso à época da sua reprodução. São as cegonhas a anunciar a Primavera. Um bando delas… Ei-las entre torres sineiras, telhados, árvores e postes de electricidade. Ei-las em tudo o que tenha muita altitude. Em tudo o que possa suportar ninhos tão robustos que ultrapassem as duas centenas de quilos!

Estamos na costa alentejana, mais precisamente na Reserva Natural do Estuário do Sado. O ferry deixou-nos em Tróia e foi daí que partimos de jipe com Nuno Soares, da Mil Andanças, na rota das cegonhas, esse bicho curioso que traz muitas histórias no bico, mas nunca bebés como reza a lenda.

Um arco branco e debruado a azul dá-nos as boas vindas à Herdade da Comporta, a maior herdade privada do país, pertença da família Espírito Santo. Há logo ali uma casa com sinos no alto, que Nuno explica que outrora serviam para marcar o horário dos trabalhadores dos arrozais, que se dedicavam meses a fio à lavoura artesanal. Hoje, findo esse uso, hospedam na sua torre um casal de cegonhas enamorado, pronto a acasalar.

Se o arroz é a identidade da terra, com cerca de mil hectares de arrozais para cultivo, entre antigos sapais e as várzeas salgadiças, também as cegonhas fazem por se impor como símbolo da região. É vê-las a planar por toda a área do estuário do Sado ou nos seus ninhos, às vezes em locais tão impróprios como as árvores. «Como os seus dejectos são ácidos, acabam por matar a ramagem onde constroem o ninho. Como aquela ali que já não tem topo. O ninho acabou por cair», aponta Nuno para uma árvore que fica junto ao marco geodésico de Murta.

Mas como a persistência é adjectivo típico da cegonha e a fidelização à ‘casa’ uma outra característica sua, «se for preciso voltam a construir o ninho no mesmo sítio de onde caiu». Monogâmicas e excelentes ‘donas de casa’, assim são as aves que podem chegar a medir os dois metros de envergadura.

Voando sobre um  Ninho de Cegonhas

Mas são também esquivas e ardilosas. Dão quase sempre pela presença humana ou de algum forasteiro que lhes transtorne o sossego. Ao mínimo barulho de motor do jipe, arrancam do seu ninho, sem nunca o perder de vista. Para se conseguir observá-las tranquilamente, há que fazer deslizar o jipe pelas terras batidas que contornam os canteiros de arroz. É preciso saber fintá-las, antes que sejam elas a fintar-nos.

O trilho é quase sempre plano, em terra batida ou alcatrão. E o Sol vinga-se em todo o seu esplendor de um Inverno que se mostrou chuvoso e fatigante. Os vidros do jipe estão abertos e a aragem já cheira e sabe a Verão, um pouco fora de época.

Há parte do solo que já está carregado de água, pronto a receber a semente do arroz. Há outra terra que ainda está a ser lavrada pelos tractores. Ao ser revolvida é um banquete para as aves em geral, que esvoaçam sem rodeios à procura de alimento. Insectos, cobras, minhocas, sapos ou vermes. A ementa é variada para as mais de cem espécies de aves que nidificam no estuário.

A reserva do Sado é o principal habitat das cegonhas, das garças, dos corvos marinhos ou dos flamingos. E se as cegonhas procuravam os destinos africanos no tempo frio, «hoje 70 por cento delas já não migram, uma vez que os Invernos não são tão rigorosos», esclarece Nuno.

Partimos agora em direcção à Carrasqueira. Mais arrozais, novas cegonhas, outros ninhos robustos feitos de ramagem maciça e entrelaçada. Nuno Soares pergunta se sabemos como se chamam as cegonhas bebés que estão prestes a nascer, «é agora na Primavera». Abanamos a cabeça em sinal de negação. Cegonhos é a resposta. Mas as adivinhas não ficam por aqui: «Já ouviram o ditado ‘São João, cegonhas no chão?». Mais uma vez, não sabemos. «As mães têm de ensinar as suas crias a voar até à altura do São João. As crias mais preguiçosas são atiradas dos ninhos pelas mães e muitas acabam por morrer no chão.»

Se a Natureza pode ser sádica em alguns momentos, noutros é bastante confortante. Foi o que sentimos quando chegámos ao cais palafítico da Carrasqueira. Todo ele assente numa estrutura ou estacaria de madeira verde (a palafita) que não morre se for conservada em água, o cais serve de abrigo à pesca artesanal que se pratica no Sado, fértil em choco e linguado. As mulheres limpam as redes dos limos em pequenas embarcações, enquanto os homens carregam em baldes a pescaria do dia para vender na lota. As cegonhas espiam à distância…

Voando sobre um Ninho de Cegonhas

De regresso ao ferry de Tróia, a visita à Cabana do Pai do Tomás, casa de turismo rural da Mil Andanças, impõe-se obrigatória. Toda ela feita de colmo e de palha por fora, é um regresso ao passado que lembra as habitações que os trabalhadores rurais construíam na região, onde labutavam sazonalmente vindos das Beiras e de todo o Alentejo, mas onde muitos acabaram por se estabelecer.

A Comporta hoje é deles, mas também é das cegonhas. Se é importante «conservar o estuário porque é a maternidade dos peixes», conservem-se os ninhos das cegonhas que vieram para ficar, tal como os trabalhadores dos arrozais…

Innformações

Na Rota das Cegonhas

Mil Andanças – Viagens e Turismo

http://www.mil-andancas.pt/

De Tróia parta pelos arrozais da Comporta, onde se avistam muitos ninhos de cegonha. Passe pelo cais palafítico da Carrasqueira, por Murta, Monte Novo, Cachopos e Montevil.

Meio-dia: €35.

Fonte: SOL

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